Prof. Dr. Carlos José Ferreira dos Santos
Universidade Estadual de Santa Cruz - Ilhéus/Bahia
Faz tempo que a região dos municípios
de Pau-Brasil, Itajú Do Colônia e Camacan é palco de constantes
disputas e conflitos em relação às terras indígena do Posto Indígena
Caramuru Catarina Paraguaçu. Até a criação do Posto aquela área
era habitada pelos povos Pataxós Hã Hã Hãe, Kamakã, Baenã e Tupinambá,
entre outros, como atestam os relatórios do Instituto Histórico e
Geográfico da Bahia - IHGB feitos nas décadas de 1920-1930. Em
1927, o Governo Federal criou o Posto Indígena numa área bem menor da
que os índios ocupavam até então. De acordo com o relatório feito pelo
IHGB em 13 de maio de 1925, a ex
tensão do território indígena ”ainda não ocupado pelas plantaçõe s de
cacau” era de “cerca de 300 léguas”. Porém, o mesmo relatório solicitou apenas 50 léguas para a população indígena.
Uma das justificativas para a criação do posto foi proteger os índios dos constantes massacres que sofriam. Esta situação
foi relatada em carta enviada pelo missionário Frei Bento de Sousa para
o Diretor de Serviço de Proteção aos Índios, em 28 de março de 1924.
Nela, o clérigo relata:
Na
qualidade de missionário católico e brasileiro, peço humildemente ao
Sr. Diretor que tome providencias acerca destes pobres brasileiros,
que infelizmente qualquer civilizado pode invadir-lhe os terrenos,
expulsá-los a bala. Chamar o engenheiro para medir as terras roubadas e
afinal comprá-las legalmente ao governo. O pobre caboclo não repele o
invasor, foge mais para a mata. Acessados pela fome, às vezes roubam
mandiocas ou matam alguma rez. Tem se matado índios no Rio Pardo como
bichos. Houve quem levasse roupas de varíolas e as deixasse em lugares
onde os caboclos as achassem, para os destruir. De fato, viam-se mais
tarde os urubus baixando sobre as matas (SOUSA, 28 de março de 1924).
Vale
ponderarmos que: ao invés de impedir o massacre feito pelos que estavam
ocupando o território e expulsando as comunidades indígenas da região, o
caminho adotado foi a redução territorial indígena. Assim perguntamos:
por que o governo não expulsou então, os invasores, preservando o
território indígena em suas dimensões? Com a criação do Posto, mesmo em
sua dimensão reduzida, em tese aquelas terras seriam de usufruto da
população indígena local.
Contudo,
desde a instalação do Posto, o Serviço de Proteção ao Índio - SPI
iniciou o arrendamento irregular daquelas terras para posseiros e
particulares. O governo da Bahia, por sua vez, emitiu títulos sobre
aquelas terras. Emissão irregular porque as mesmas pertenciam ao Posto
Indígena. Esta situação tem criado um quadro de constates práticas de
violência e usurpação dos direitos das comunidades indígenas.
Acreditamos
que o Supremo Tribunal Federal (STF) precisa julgar com urgência a
nulidade dos títulos emitidos de forma irregular. A ação de retomada das
terras feitas pela comunidade indígena é uma tentativa de apressar o
julgamento e obter de volta o que é de direito. Por isto dizem que "não é invasão porque estamos retomando o que é nosso". Vale
lembrar que foi no sentido de cobrar agilidade no julgamento da
nulidade dos títulos que em 1997 foi assassinado (queimado vivo) em
Brasília o índio Galdino Jesus dos Santos. Assim como o índio Galdino,
outras pessoas já morreram por causa
deste conflito e o pior é que as mort es talvez continuem. Veja
o relato a seguir feito pela Comunidade Pataxó Hã Hã Hãe sobre o dia
21/04/2012 quando realizavam um ato em repúdio à violência na área:
Estranhamente,
assim que as pessoas (indígenas e os que apoiam a luta deste povo)
desciam dos veículos eram revistadas pelos policiais que, tão logo nos
revistaram e vasculharam nossos pertences, se evadiram da área e nos
deixaram entregues à própria sorte. Ato contínuo, os pistoleiros
apareceram em muitos veículos, tais como motocicletas, caminhonetes e
carros de passeio, além dos que apareceram à pé, saindo dos pastos, e
nos atacaram fortemente. Os funcionários da FUNAI que estavam nos
acompanhando nos ajudaram com os veículos da FUNAI e, juntamente com os
veículos da própria comunidade, demos fuga para nossas mulheres e
crianças e a todos os homens que ainda encontraram espaço nos veículos.
Todos os demais tiveram que fugir pelos pastos, correndo para salvar
suas vidas, sob uma verd adeira chuva
de balas. Os pistoleiros nos perseguiram pelas estradas, em seus
veículos, chegando ao absurdo da impressão de que até mesmo os policiais
estariam nos escoltando, à frente dos pistoleiros, para fora de nossa
terra. As pessoas que ficaram para trás, nos pastos, foram sendo
localizadas, por celular, enquanto subiam as serras para nos contatar.
Elas foram sendo instruídas a seguir para locais onde fomos podendo
resgatá-las. Ainda temos pessoas desaparecidas e sem nos contatar: não
sabemos se ainda estão vivas.
Denunciamos
as polícias Federal, Militar e Civil, primeiramente por nos terem
garantido que das áreas de onde saíram os veículos dos pistoleiros não
haveria nenhum homem armado; denunciamos por haverem nos revistado e
constatado que não estaríamos em condições de reagir a qualquer ataque;
e, finalmente, por terem se evadido do local sem nos socorrer, enquanto
estávamos sob forte ataque.
Dado
ao absurdo desta situação, solicitamos a todas as entidades que nos
apoiam, aos nossos amigos e às pessoas simpatizantes de nossa causa que
nos ajudem a divulgar esta denúncia.
Posto Indígena Caramuru Catarina Paraguaçu, 22 de abril de 2012.
A Comunidade Pataxó Hã Hã Hãe.
Cabe
a Justiça Brasileira uma resolução imediata e definitiva deste quadro
de disputa. Em 26 de setembro 2010 já ocorreu um primeiro julgamento:
“os títulos imobiliários e os registros cartorários implementados em
benefícios dos réus (posseiros e arrendatários) e seus antecessores são
completamente nulos”.
Somente com a manutenção deste julgamento, a justiça será feita e a situação irá começar a se acalmar. Portanto, pensamos que, atualmente, em grande parte a culpa do conflito é a demora no julgamento da nulidade dos títulos emitidos irregularmente sobre as ter ras indígenas Pataxó Hã Hã Hãe.
Somente com a manutenção deste julgamento, a justiça será feita e a situação irá começar a se acalmar. Portanto, pensamos que, atualmente, em grande parte a culpa do conflito é a demora no julgamento da nulidade dos títulos emitidos irregularmente sobre as ter ras indígenas Pataxó Hã Hã Hãe.
Prof. Dr. Carlos José Ferreira dos Santos
Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC
Coordenador do Projeto PIBID-UESC-Escola Estadual Indígena Tupinambá de Olivença
Comissão Organizadora do Seminário de História Indígena: Índios Marcelino
OBS.:
Parte da mídia apresenta uma visão preconceituosa, criminalizando a
população indígena daquela área. Mantenha-se informado de forma
alternativa sobre o que ocorre, acompanhando o site:
